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Um panorama particular da década de setenta que apresenta aquele universo de magia e ao mesmo tempo desesperança para os leitores que não viveram aquele momento. Aos outros queremos provocar a reflexão. |
Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade de
História é que somos filhos de nosso tempo, mais do que de nossos pais. Isto
quer dizer que o tempo presente e o meio em que habitamos nos influenciam e nos
moldam mais que eles.
Eu sou filho da década de setenta, muito mais que da família
que me criou. Remanescentes de um quilombo, não eram alfabetizados e tiveram
muitas dificuldades para me criar. Está claro que em termos educacionais e
culturais não poderiam me passar muita herança, mas em relação a respeito e
trabalho me ensinaram muito.
Os anos 1970 aqui no Brasil foram extremamente ricos,
principalmente na música, da qual tivemos artistas excelentes em todos os
gêneros. A chamada MPB, o denominado “brega”, o sertanejo, a black music e o
rock... em todas as tendências musicais alguém se destacou. Poucos pensam desta
forma, pois se há uma década que é esquecida e tratada com descaso, é essa.
Uma época, um movimento, ou uma década é relevante quando
está sempre em pauta, por exemplo, a Semana de 22, a Revolução de trinta, o
fim da Segunda Guerra Mundial em 45,
a Bossa Nova nos anos cinqüenta, os Beatles e a Jovem
Guarda nos anos sessenta. Diferente da década de setenta, que parece não ter
acontecido nada. Só que aconteceu, a crise do petróleo, a 'discotheque', o
punk, as greves no ABC, os protestos nus, as torturas, os exílios, as prisões
arbitrárias, a censura, enfim, aconteceram coisas demais em dez anos para
simplesmente serem esquecidas.
Voltando à música, que é o objetivo deste texto. Em 1972, Os Novos Baianos lançam “Acabou Chorare”, disco que hoje é
considerado por alguns críticos musicais o melhor de todos os tempos no Brasil.
Caetano e Gil voltavam do exílio, Luis
Melodia apareceu e Milton Nascimento
se firmou na constelação musical brasileira. Jorge Mautner também retornou do exterior e lançou “Para Iluminar a Cidade”, enquanto Rita Lee começou uma fértil carreira-solo.
A música explode no país inteiro; no Rio grande do Sul surge
o Almôndegas, enquanto lá no Norte e
Nordeste aparecem Alceu Valença, Ednardo, Zé Ramalho e muitos outros. Em Minas, Tavito, Beto Guedes e Lô Borges. No Espírito Santo, Sérgio Sampaio e em São Paulo o rock explode
em várias direções, do hard rock, ao rock progressivo, passando pelo rock rural
e pelo rock debochado. Made in Brazil,
Joelho de Porco, O Terço, Peso, Terreno Baldio, Casa das Máquinas, Recordando o Vale das Maçãs e bandas que nem chegaram a gravar
discos, como o IV Reich, Syndicato, Equipe 4 Mais e muitas outras. Todos queriam tocar, ter uma banda,
até eu tentei um teste na Rádio Nacional
com o Sebastião Ferreira da Silva, e cheguei a cantar numa banda de rock, cujo
nome era muito pretensioso, A Luz do
Rock; infelizmente ela foi apenas mais uma estrela cadente no horizonte.
Poderia ficar falando horas de tudo que era possível fazer
escondido naquela época, protestar, fazer abaixo-assinado, passeatas, correr da
polícia, ler livros proibidos, assistir a filmes não permitidos, ir ao teatro
ver peças contra o regime político. Poderia falar dos acampamentos em praias
desertas, as caronas para outros estados, as feiras hippies, quer dizer, feiras
hippies mesmo, os shows de rock e
MPB, nos quais era possível falar com o porteiro e entrar na faixa, ou pedir um
cruzeiro pra cada um na fila e comprar o ingresso. Poderia dizer que éramos
levados a conhecer Sartre, Camus, Rinbaud, Sócrates, Lênin, Marx e Baudelaire,
pois tudo isto fazia parte do nosso cotidiano, no qual os compositores eram
obrigados a colocar mensagens subliminares nas letras das canções para que os
censores não suspeitassem e nós precisávamos nos esforçar para entender o que
eles queriam nos dizer.
Não estou dizendo em hipótese alguma que a década de setenta
é melhor que esta, ou qualquer outra, e sim que ela é importante e não deve ser
esquecida. Um período que precisa ser revisitado, que suas músicas sejam
relembradas e, se possível, regravadas.
Ao mesmo tempo, foi uma década terrível, com muita dor,
muito sangue, com repressão. Uma época de ilusões, de perda da inocência, e de
“exageros”, mas que não pode ser esquecida. Talvez coubesse até um tributo
musical, no qual bandas do presente gravassem músicas de bandas e artistas desse
momento, referenciando suas obras, e a dificuldades que tinham em compor por
causa da censura.
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