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Crônica de uma Década Esquecida PDF Imprimir E-mail
Por Devanir Magi   
03 de June de 2008

 novosbaianos1972acabouchorare.jpg Um panorama particular da década de setenta que apresenta aquele universo de magia e ao mesmo tempo desesperança para os leitores que não viveram aquele momento. Aos outros queremos provocar a reflexão. 

jorgemautner1972parailuminaracidade.jpg Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade de História é que somos filhos de nosso tempo, mais do que de nossos pais. Isto quer dizer que o tempo presente e o meio em que habitamos nos influenciam e nos moldam mais que eles.

Eu sou filho da década de setenta, muito mais que da família que me criou. Remanescentes de um quilombo, não eram alfabetizados e tiveram muitas dificuldades para me criar. Está claro que em termos educacionais e culturais não poderiam me passar muita herança, mas em relação a respeito e trabalho me ensinaram muito.

Os anos 1970 aqui no Brasil foram extremamente ricos, principalmente na música, da qual tivemos artistas excelentes em todos os gêneros. A chamada MPB, o denominado “brega”, o sertanejo, a black music e o rock... em todas as tendências musicais alguém se destacou. Poucos pensam desta forma, pois se há uma década que é esquecida e tratada com descaso, é essa.

Uma época, um movimento, ou uma década é relevante quando está sempre em pauta, por exemplo, a Semana de 22, a Revolução de trinta, o fim da Segunda Guerra Mundial em 45, a Bossa Nova nos anos cinqüenta, os Beatles e a Jovem Guarda nos anos sessenta. Diferente da década de setenta, que parece não ter acontecido nada. Só que aconteceu, a crise do petróleo, a 'discotheque', o punk, as greves no ABC, os protestos nus, as torturas, os exílios, as prisões arbitrárias, a censura, enfim, aconteceram coisas demais em dez anos para simplesmente serem esquecidas.

Voltando à música, que é o objetivo deste texto. Em 1972, Os Novos Baianos lançam “Acabou Chorare”, disco que hoje é considerado por alguns críticos musicais o melhor de todos os tempos no Brasil. Caetano e Gil voltavam do exílio, Luis Melodia apareceu e Milton Nascimento se firmou na constelação musical brasileira. Jorge Mautner também retornou do exterior e lançou “Para Iluminar a Cidade”, enquanto Rita Lee começou uma fértil carreira-solo.

A música explode no país inteiro; no Rio grande do Sul surge o Almôndegas, enquanto lá no Norte e Nordeste aparecem Alceu Valença, Ednardo, Zé Ramalho e muitos outros. Em Minas, Tavito, Beto Guedes e Lô Borges. No Espírito Santo, Sérgio Sampaio e em São Paulo o rock explode em várias direções, do hard rock, ao rock progressivo, passando pelo rock rural e pelo rock debochado. Made in Brazil, Joelho de Porco, O Terço, Peso, Terreno Baldio, Casa das Máquinas, Recordando o Vale das Maçãs e bandas que nem chegaram a gravar discos, como o IV Reich, Syndicato, Equipe 4 Mais e muitas outras. Todos queriam tocar, ter uma banda, até eu tentei um teste na Rádio Nacional com o Sebastião Ferreira da Silva, e cheguei a cantar numa banda de rock, cujo nome era muito pretensioso, A Luz do Rock; infelizmente ela foi apenas mais uma estrela cadente no horizonte.

Poderia ficar falando horas de tudo que era possível fazer escondido naquela época, protestar, fazer abaixo-assinado, passeatas, correr da polícia, ler livros proibidos, assistir a filmes não permitidos, ir ao teatro ver peças contra o regime político. Poderia falar dos acampamentos em praias desertas, as caronas para outros estados, as feiras hippies, quer dizer, feiras hippies mesmo, os shows de rock e MPB, nos quais era possível falar com o porteiro e entrar na faixa, ou pedir um cruzeiro pra cada um na fila e comprar o ingresso. Poderia dizer que éramos levados a conhecer Sartre, Camus, Rinbaud, Sócrates, Lênin, Marx e Baudelaire, pois tudo isto fazia parte do nosso cotidiano, no qual os compositores eram obrigados a colocar mensagens subliminares nas letras das canções para que os censores não suspeitassem e nós precisávamos nos esforçar para entender o que eles queriam nos dizer.

Não estou dizendo em hipótese alguma que a década de setenta é melhor que esta, ou qualquer outra, e sim que ela é importante e não deve ser esquecida. Um período que precisa ser revisitado, que suas músicas sejam relembradas e, se possível, regravadas.

Ao mesmo tempo, foi uma década terrível, com muita dor, muito sangue, com repressão. Uma época de ilusões, de perda da inocência, e de “exageros”, mas que não pode ser esquecida. Talvez coubesse até um tributo musical, no qual bandas do presente gravassem músicas de bandas e artistas desse momento, referenciando suas obras, e a dificuldades que tinham em compor por causa da censura.


 
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